Úlcera varicosa: por que aparece e como se ver livre dela

A úlcera é um ferimento na pele, que pode ser decorrente de um machucado, uma batida ou um corte, ou ainda aparecer espontaneamente. Algumas úlceras cicatrizam rapidamente e outras demoram ou nunca fecham. Isso depende da presença ou não de doenças da circulação, pressão alta, diabetes, inflamações e infecções da pele etc. Os problemas na circulação venosa são a principal causa para o aparecimento das feridas nas pernas, responsável por 70% das úlceras de membros inferiores (este dado foi retirado deste artigo aqui).

Úlceras nas pernas podem ser causadas pela presença de varizes


Varizes: a raiz do problema


Quando a circulação venosa está comprometida, devido à insuficiência das válvulas das veias, ocorre um aumento da pressão do sangue dentro das veias, que não consegue voltar de forma adequada ao coração. Expliquei detalhadamente o funcionamento do sistema venoso nos artigos 'Por que eu tenho varizes?' e 'Salto alto causa varizes?'. Esse aumento da pressão, leva ao extravasamento de água, células do sangue, fatores inflamatórios de dentro da veia para o espaço entre as células da pele e do tecido gorduroso subcutâneo. Esse mecanismo é o responsável pelo inchaço e pelo aparecimento de áreas de coloração escurecida na pele da perna (chamada pelos médicos de dermatite ocre). Quanto mais extravasam essas substâncias e células, mais difícil se torna a circulação local, e quanto mais difícil a circulação, mais extravasamento: é um ciclo vicioso. E este ciclo vicioso causa alterações na nutrição da pele porque dificulta a chegada do sangue arterial rico em nutrientes nas áreas afetadas. E, uma vez que as células daquela região da pele morrem por falta de oxigênio e nutrientes, aparece uma ferida. O aparecimento da úlcera também pode ser desencadeado por um trauma local (corte, batida, escoriação), que, atingindo uma pele já doente e sofrida, acaba abrindo uma lesão.
A falta de nutrientes e oxigênio na pele leva a morte das células e aparecimento das feridas

Além de levar ao aparecimento da úlcera, o mesmo ciclo vicioso leva à perpetuação da úlcera. Há pessoas que ficam meses, anos e até décadas com úlceras nas pernas que não cicatrizam.
Assim, facilmente concluímos que, para resolver a ferida, é necessário tratar a origem do problema: a hipertensão venosa crônica.

Como evitar o aparecimento de úlceras varicosas nas pernas?


A principal medida é o tratamento precoce das varizes. O ideal é tratar as varizes antes que se inicie o processo de inchaço e escurecimento da pele, uma vez que essas alterações podem não regredir mesmo após a retirada das veias insuficientes.
O tratamento das varizes vai depender da avaliação do Cirurgião Vascular com exame físico detalhado e ultrassom doppler venoso de membros inferiores. Com isso, ele irá definir qual a melhor técnica para cada caso.
Para saber mais sobre as alternativas de tratamento para as varizes, acesse o post 'Como tratar varizes nas pernas?'

E quem já tem úlcera varicosa, o que fazer?


Para quem já tem ferida na perna em decorrência das varizes, a batalha para vencê-la é árdua. Envolve além do tratamento das varizes, uma série de medidas para evitar o inchaço da perna e o conseqüente extravasamento de células sangüíneas e substâncias que perpetuam o problema. Além disso, é de suma importância evitar a infecção local, já que a barreira natural de proteção que é a pele íntegra está ausente.
Sendo assim, o tratamento começa com a avaliação minuciosa da perna afetada pelo médico Cirurgião Vascular. Ele irá identificar a presença das varizes e outras doenças como o diabetes e a pressão alta descontrolada, que precisam ser tratadas e compensadas para que a úlcera cicatrize. É necessário ainda identificar a presença de infecção no leito da ferida, que precisa ser tratadas com antibióticos imediatamente.
O principal exame completar que deve ser solicitado neste caso é o ultrassom doppler venoso, já que o tratamento da insuficiência venosa é a principal ação necessária para o fechamento da ferida e prevenir o seu reaparecimento.
O tratamento do refluxo da veia safena e das veias perfurantes é essencial. Esse tratamento pode ser feito basicamente com a cirurgia tradicional ou safenectomia (saiba mais em 'Cirurgia para varizes: saiba como é feita passo-a-passo'), a cirurgia com laser e com radiofrequencia (detalhes em  'Radiofrequência: uma alternativa à cirurgia convencional de varizes') ou ainda esclerose da veia com espuma de polidocanol. Apesar de bastante diferentes quanto à técnica, o intuito destes tratamentos é o mesmo: evitar que o sangue retorne pela veia safena que está insuficiente e caminhe por veias mais saudáveis.
Também é de suma importância a realização dos curativos, tanto antes e quanto após o tratamento das veias insuficientes, até que as úlceras estejam completamente cicatrizadas.
O curativo da úlcera varicosa é essencial para sua cicatrização
O curativo visa evitar a infecção local, proteger contra traumas, absorver secreções e manter um ambiente hidratado e propício à cicatrização da ferida.
Já foi provado por diversos estudos, como este aqui, que manter a ferida coberta é melhor do que descoberta.
Deve ser realizado com a maior higiene possível, lavando bem as mãos antes de manipular a ferida,  limpando todo resíduo de cremes e pomadas da ferida com soro fisiológico ou água filtrada e utilizando material limpo, como gazes e faixas de crepe.
Evite o uso de adesivos como fita crepe e esparadrapo diretamente sobre a pele para não machucar e causar aumento da ferida. Jamais utilize plantas, receitas caseiras ou substâncias que não sejam rigorosamente esterilizadas no curativo: isso pode causar infecções graves!
Existem kits prontos com o material necessário para o curativo dessas úlceras, porém, esse material tem um custo elevado.
A frequencia de troca do curativo depende do material utilizado no curativo. Curativos simples com gaze e faixa devem ser trocados diariamente. Curativos sofisticados, confeccionados com substâncias antimicrobianas podem permanecer por mais tempo. Sempre peça orientação ao seu médico e à equipe de enfermagem sobre como e quando trocar o curativo e que material utilizar.
Por cima do curativo, deve ser realizada a compressão da perna com faixa ou meia elástica. Esse é o ponto chave do tratamento. A última revisão publicada sobre o tema na revista científica Phlebology em  março de 2013 concluiu que realizar a compressão elástica diminui o tempo de cicatrização das úlceras varicosas (leia o artigo completo aqui). Este estudo mostrou ainda que a alta compressão é mais efetiva do que a média e suave compressão. Isso se deve ao poder que a compressão elástica têm de diminuir o edema (inchaço).  Portanto, é necessário colocar por cima do curativo uma faixa elástica de compressão ou uma meia elástica de alta compressão. As empresas fabricantes das meias têm inclusive linhas de meias de compressão próprias para quem tem úlcera.
Uma alternativa interessante ao curativo associado à compressão elástica é a bota de Unna. Essa bota é feita com uma faixa de algodão embebida em um composto cremoso feito com óxido de zinco, goma acácia, glicerol, óleo de rícino e água deionizada. É aplicada diretamente sobre a pernas que possui a ferida. Quando este composto seca, ele forma uma camada elástica, funcionando como curativo e compressão ao mesmo tempo. A bota deve ser trocada a cada 5 a 7 dias. Deve ser realizada por profissionais treinados e não pode ser feita em pacientes com úlceras infeccionadas ou que possuam doença do sistema arterial concomitante.

Neste artigo tratei especificamente das úlceras decorrentes de problemas da circulação venosa. Existem ainda diversas causas para o aparecimento de ferimentos que não cicatrizam, por isso, é imprescindível a consulta com um médico  para estabelecer a causa e indicar o tratamento mais adequado. Problemas arteriais (que podem levar a amputação da perna) e cânceres de pele estão entre estas causas! Portanto, muito cuidado. Evite o tratamento com receitas caseiras, pomadas e curativos antes de ser devidamente avaliado por um especialista. As conseqüências podem ser irreversíveis.

Não desanime! O tratamento é longo e cheio de etapas importantes como cirurgia para tratamento das veias insuficientes, curativos e compressão, porém, se realizado de forma correta e por profissionais capacitados, a chance de cicatrização é grande.

Perguntas, dúvidas, críticas e sugestões podem ser enviadas ao nosso Fale Conosco, ou pelo Facebook, Twitter e Google Plus! Boa semana a todos os leitores!



Dra Juliana Puggina - Cirurgia Vascular - CRM/SP 134.963
Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Endovascular pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e do American College of Phlebology.

Clínica Essenza
Rua Oscar Freire 2250 cj 101 e 102 -Jd. América - São Paulo/SP

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Eu quero parar de fumar, o que devo fazer?

O cigarro é um dos maiores vilões da saúde dos seres humanos, sendo responsável por diversos tipos de câncer, por acelerar o envelhecimento da pele e dos órgãos e por deteriorar os vasos sangüíneos, levando ao acúmulo de placas de gordura e aparecimento de doenças como o infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral e obstrução das artérias das pernas, além de contribuir para as alterações da coagulação que levam ao aparecimento da trombose venosa profunda.
Grande parte das doenças vasculares são relacionadas diretamente ao hábito de fumar e a cessação do tabagismo é uma medida essencial ao tratamento dos doentes.
Todos os dias na televisão, rádio e internet nos deparamos com artigos e reportagens sobre os malefícios do cigarro, porém, mesmo sabendo do mal que ele causa, muitas pessoas permanecem fumando.
Mas não se desespere: parar de fumar é um processo difícil, mas não impossível !
Pensando em você que deseja acabar com esse vício e ter uma vida mais saudável, convidei a Dra. Alessandra Santiago, psicóloga do serviço de Cirurgia Vascular do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP para dar dicas sobre esse tema.
Espero que gostem do texto!

Dra Juliana Puggina

Você quer parar de fumar? Aprenda como!


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Eu quero parar de fumar Doutor, o que devo fazer?


O primeiro passo, para cessar o hábito de fumar é, sem dúvida, a disposição e motivação em deixar o vício. No entanto, a maioria da população fumante pensa em procurar ajuda quando, algum problema de saúde é sinalizado, e muitas vezes a gravidade impõe ao doente essa necessidade, que nem sempre condiz com sua vontade. O que fazer?
Nosso dever, como profissionais de saúde, é sempre informar, orientar e incentivar o indivíduo a “para de fumar”, mesmo que não seja de sua vontade, ele precisa ter acesso às informações e fatores de risco para sua saúde.
Fumar é prejudicial á saúde e, por isso inúmeras campanhas do Ministério da Saúde são realizadas para informar, orientar e educar, crianças, jovens e adultos sobre os danos do cigarro. Atualmente, as campanhas do governo têm sido acirradas, e leis que impedem fumar em locais fechados, impedem também o tabagismo passivo (aquele em que a pessoa inala a fumaça que o outro fuma).
O Ministério da Saúde realiza diversas campanhas para divulgar os malefícios do cigarro e conscientizar a populaçãoNo Brasil há o “Programa Nacional de Controle do Tabagismo” que é desenvolvido, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que tem por finalidade a prevenção e controle ao tabagismo. Fumar torna-se hábito e desinvestir dele é um exercício de determinação e coragem, que muitas vezes solitariamente, o indivíduo terá dificuldades em controlar.

A ajuda efetiva para o tratamento, para cessar o hábito de fumar, deve ser composta de uma equipe multiprofissional, ou seja, médico, psicólogo, nutricionista, assistente social, fisioterapeuta e educador físico.
O trabalho em grupo impõe um olhar integral e biopsicossocial ao indivíduo, podendo acolher sua história de vida e dificuldades a fim de auxiliá-los e, em conjunto elaborarmos as intervenções necessárias. Ressalta-se que é preciso avaliar o grau de dependência química, ou seja, o quanto está dependente da nicotina, e psicológica do indivíduo para tratá-lo adequadamente.
O grupo deve ter encontros semanais, no primeiro mês, depois quinzenais e conforme adesão ao tratamento e avanço do grupo, esses encontros podem ser mensais. O apoio do grupo deve ocorrer por pelo menos seis meses, pois recaídas são previstas, e o grupo funciona como motivador para reinicio do tratamento.
O objetivo desses programas sempre será, no entanto, reduzir a prevalência de fumantes e a consequente morbi-mortalidade relacionada ao consumo do tabaco. Assim como, educar e informar e promover a cessação do tabagismo e incentivando aos indivíduos qualidade de vida adequada e sadia.
Pare de fumar e ganhe mais saúde e liberdade, além de economizar um bom dinheiro!
O psicólogo é seguramente um dos profissionais que nos contextos de saúde pode contribuir de forma relevante para modificação de um dos comportamentos evitáveis mais mortíferos em termos de saúde pública, haja para isso um investimento e decisões politicas favoráveis que possam dar resposta ás necessidades da população.

Todas as informações e cartilhas de orientação, prevenção e controle do tabagismo encontram-se, detalhadamente, no site do INCA - Ministério da Saúde – Clique aqui para saber mais!



Sobre a autora
Alessandra Santiago (CRP 06/59248) é psicóloga, especialista em psicologia hospitalar, exercendo atividades no Serviço de Cirurgia Vascular do Instituto Central do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP)

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Luz pulsada realmente trata os vasinhos???


O uso do laser no tratamento de lesões vasculares iniciou-se no final dos anos 60 com o laser de argônio. Na década de 90 o FDA aprovou o uso da luz pulsada para os mesmos fins, e em 1994 foi lançado no mercado o primeiro dispositivo de Luz Pulsada (IPL)

A luz pulsada é uma forma de tratamento dos vasinhos das pernas sem agulhas!

Como é possível tratar os vasinhos usando 'luz'?


O tratamento das telangectasias com lasers ou IPL baseia-se na teoria da ‘fototermólise seletiva’. Isso significa basicamente que a luz que aplicamos deve ter absorção pelos cromóforos (moléculas que absorvem a energia) do tecido que queremos atingir (no tratamento das lesões vasculares, a hemoglobina). Nos vasos mais superficiais e avermelhados, ricos em oxigênio, temos predomínio da oxiemoglobina e nos vasos um pouco maiores, azulados e mais profundos, da deoxiemoglobina. A absorção de energia pela hemoglobina provoca aquecimento local. A energia térmica produzida se espalha e provoca lesão do vaso, resultando em sua trombose e, posteriormente, o seu desaparecimento.


Ao contrário dos dispositivos de lasers que se caracterizam pela emissão de feixes de luz coerentes (no mesmo sentido) e de comprimento único, as fontes de IPL emitem amplos espectros de luz incoerente, e com comprimentos variando de 515 a 1200nm.
Mas o que isso quer dizer...? A variedade do comprimento de ondas na IPL permite o tratamento de diversas lesões, mas como não podemos selecionar um comprimento único, o risco de afetar outros tecidos além do que se deseja tratar, provocando manchas e outros efeitos desagradáveis, é maior.

E porque há risco de manchas?


A faixa de absorção de luz pela pela hemoglobina em certos comprimentos de onda é muito próxima da absorção de luz pela melanina da pele, ou seja... dependendo da intensidade e dos comprimentos de onda da luz que é aplicada, pode-se atingir ao mesmo tempo os vasos e a melanina, provocando manchas geralmente hipocrômicas (brancas) de difícil tratamento....

A luz pulsada é absorvida pela hemoglobina, molécula que existem dentro dos glóbulos vermelhos do sangue


Para usar a IPL com menor risco de complicações, usa-se um ‘filtro de corte’ que limita o espectro de luz a ser aplicado. Geralmente o filtro considerado seguro emite feixes entre 515 e 590nm, que são eficazes apenas para o tratamento das lesões vasculares mais superficiais, de pequeno calibre e ricas em oxigênio. Para os demais tipos de lesões, é preferível recorrer a outros tratamentos

Você agora pode estar se perguntando... AFINAL, FUNCIONA OU NÃO???


Como todos os tratamentos disponíveis para os vasinhos , (leia mais no texto Vasinhos nas pernas:como acabar com eles!), a eficácia varia de acordo com uma série de fatores, entre eles:

1. O vaso a ser tratado

Para os vasinhos vermelhos e fininhos da face a luz pulsada é uma ótima alternativa
- Vasinhos fininhos e vermelhos (como aqueles da asa do nariz) respondem bem ao tratamento com IPL, com pouco risco de complicações

- Quando há veias maiores nutrindo os vasinhos fininhos, a resposta com a IPL tende a ser menos eficaz se as ‘raízes’ não forem tratadas previamente

- Para tratar vasos azulados e mais profundos a escleroterapia convencional e o laser Nd:yag costumam ser opções melhores


2. O seu tipo de pele
- Peles mais morenas, bronzeadas e orientais têm um maior risco de discromias (manchas) secundárias ao tratamento


3. O local e os profissionais que realizam o procedimento.


Cuidado: muitas clínicas de estética vendem luz pulsada como laserCUIDADO! Certifique-se de que o local que você escolheu siga as normas de segurança, que os profissionais sejam habilitados e que os equipamentos sejam de qualidade (sim, um equipamento mal regulado ou mal utilizado pode gerar resultados desastrosos) DESCONFIE de promessas ‘milagrosas’ ou preços atrativos demais.... E CONFIRA se não está levando ‘gato por lebre’: Laser e Luz Pulsada são coisas diferentes, para diferentes finalidades e com valores diferentes...



Pra finalizar o post de hoje, o que sempre ressaltamos por aqui: ANTES de realizar qualquer procedimento, por mais trivial que possa parecer, consulte seu médico. Ele é certamente a pessoa mais indicada para lhe orientar!

Quer saber um pouquinho mais da ciência por trás disso?
Leia aqui e aqui!

Até a próxima!


Dra Anelise Rodrigues - Cirurgia Vascular
Sobre a autora
Dra. Anelise Rodrigues é médica, formada pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Especialista em Cirurgia Vascular pela SBACV/AMB. Estágios em Cirurgia Endovascular na Universidade de Barcelona / Espanha e Ultrassom Vascular na Clínica Fluxo/SP e no Maimonides Medical Center, New York/USA.
 Atua como Cirurgiã Vascular em São Paulo/SP e Cuiabá/MT.
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Dor nas pernas para andar: saiba tudo sobre doença arterial periférica

A dor nas pernas para caminhar pode ser indício de obstrução das artérias das pernas. Geralmente, este problema acomete pessoas acima de 50 anos e acontece devido a deposição de placas de gordura e cálcio nas artérias: a temida aterosclerose. Nesse artigo vamos tratar exclusivamente desse problema.

Dor nas pernas para andar pode ser sinal de obstrução das artérias

Aterosclerose: a origem do problema

A aterosclerose é uma doença silenciosa. Ela não causa dor ou qualquer sintoma na pessoa que a possui. Somente quando a placa de gordura e cálcio aumenta muito a ponto de causar um entupimento de alguma artéria é que os sintomas começam a aparecer. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) de 2011, as duas principais causas de morte no mundo são relacionadas à aterosclerose: infarto do miocárdio e acidente vascular cerebral (derrame). Essas duas doenças juntas corresponderam a 24,3% de todas as mortes registradas no mundo em 2011 (leia mais aqui). Em outras palavras: um quarto das pessoas que morreram em 2011, morreram por causa da aterosclerose. Esse dado é muito chocante.
Já falei um pouco sobre esse tema nos artigos: 'Problemas de circulação: como saber se tenho ou não!' e 'Dor nas pernas e suas causas'.
Quando a aterosclerose acomete as artérias que irrigam as pernas, o caso não é tão grave quanto quando acomete o coração ou as as artérias do pescoço e cérebro (que podem matar) porém, pode causar incapacidade para andar e até amputação da perna.
Os fatores responsáveis pelo desenvolvimento da aterosclerose são relacionados ao nosso estilo de vida, especialmente com a má alimentação, a falta de exercícios físicos, a obesidade e o tabagismo. Além disso, doenças crônicas como o diabetes e a hipertensão arterial também contribuem para a formação de placas de gordura nas artérias quando não são tratadas de forma adequada.
O acúmulo de gordura nas suas paredes leva ao entupimento das artériasA formação das placas de aterosclerose dentro das artérias começa com a agressão da camada de dentro do vaso sangüíneo: o endotélio. Essa agressão é causada pelas toxinas presentes no cigarro ou pela pressão sangüínea muito alta ou pela alta concentração de glicose no sangue que ocorre no paciente diabético. Quando o endotélio das artérias é agredido, fica mais fácil a entrada de partículas de gordura e de colesterol ruim (LDL). A gordura e o colesterol ficam presos na parede da artéria, levando a formação de placas de gordura. Isso ocorre no corpo todo, em todas as artérias.
Para se defender, o organismo forma camadas de fibrose e de cálcio por cima dessa gordura.
Se a pessoa mantiver os fatores de risco, cada vez mais gordura se acumula e em um determinado momento, ocorre a obstrução da artéria.
Além disso, mesmo quando a placa de gordura ainda não obstruiu totalmente o vaso, pode acontecer sua ruptura, liberando um fragmento que vai viajar pela corrente sangüínea até ficar preso em algum vaso menor. Chamamos este fenômeno de ateroembolismo.
Quando uma artéria é obstruída, ela é incapaz de levar o sangue cheio de nutrientes e oxigênio para as células de uma determinada região. Sem sangue e sem nutrientes e oxigênio, as células morrem.
E é por isso que a obstrução das artérias do coração levam ao infarto, a obstrução das artérias do cérebro levam ao derrame (AVC) e a obstrução das artérias da perna levam à gangrena e amputação.
Quando essa obstrução ocorre devagar, o organismo se adapta lentamente, produzindo novos vasos que, apesar de menores, conseguem levar o sangue até as células. Isso é chamado de circulação colateral.

Obstrução das artérias das pernas e a dor para andar


Quando a aterosclerose acomete as artérias das pernas, o sangue tem dificuldade de chegar na musculatura que usamos para caminhar. Mas, como expliquei acima, aos poucos o organismo vai criando outros caminhos para o sangue atingir seu destino.
Sendo assim, existem muitas pessoas com obstrução completa da circulação arterial para uma ou até para as duas pernas que não sentem absolutamente nada. Nesses casos, a circulação colateral é suficiente para manter as células musculares vivas e funcionando de forma adequada.
Porém, algumas vezes, o sangue que chega e suficiente para manter as células vivas mas, quando há uma exigência maior, como caminhar, o sangue já não é suficiente.
Quando falta oxigênio, as células musculares utilizam um recurso chamado respiração anaeróbia para produzir a energia necessária para movimentar o músculo. Nessa modalidade do metabolismo celular, o oxigênio não é necessário, porém ocorre a produção de substâncias tóxicas como o ácido lático.
A claudicação intermitente, ou dor para caminhar, é conseqüência da obstrução das artérias das pernas
O ácido lático em contato com as terminações nervosas da musculatura gera DOR.
Sendo assim, quando a pessoa que tem obstrução arterial anda, ela sente dor. Essa dor piora se a pessoa continuar andando, até o ponto que a obriga a parar para descansar. Após alguns minutos de descanso, a dor melhora e a pessoa é capaz de voltar a andar.... até o momento que a dor retorna.
Devido a esse comportamento de andar, parar e andar de novo, os médicos denominaram este sintoma de Claudicação Intermitente.
Esse é o primeiro estágio da doença arterial obstrutiva periférica crônica.
Se a pessoa não se cuidar, continuar fumando, continuar comendo mal, continuar sem fazer exercício físico, não tratar o diabetes, a pressão alta e o colesterol alto, as artérias vão obstruindo uma a uma, até o ponto que o sangue não será mais suficiente para manter o metabolismo normal das células mesmo no repouso. Nessa situação, a dor passa a acontecer mesmo quando a pessoa está parada.
Nesses casos, a situação pode piorar ainda mais, ocorrendo a morte das células. E é isso que leva ao aparecimento de feridas e da gangrena.

Como prevenir a aterosclerose e a obstrução das artérias?


As principais medidas para evitar o problema são:

- Alimentação balanceada: pobre em gorduras, colesterol e alimentos industrializados e rica em frutas, verduras, legumes, cereais integrais e carnes magras. (Saiba mais sobre alimentação adequada no post 'Alimentação e problemas da circulação: o que comer para manter a saúde vascular')

- Prática de exercícios físicos: o exercício físico diminui os níveis de colesterol, diminui a pressão arterial, diminui o aparecimento do diabetes e estimula o aparecimento de novos vasos sanguíneos que compõem a circulação colateral. O recomendado é realizar atividades físicas por 30 minutos, no mínimo 3 vezes por semana.

- Parar de fumar: as substâncias presentes no cigarro agridem o endotélio das artérias, aumentando a deposição de gordura.

- Emagrecer: a obesidade, especialmente a obesidade abdominal, é um fator de risco para a aterosclerose.

- Tratar corretamente de doenças crônicas como o Diabetes Mellitus, a Hipertensão arterial e a Hiperlipidemia (colesterol alto) : é imprescindível o acompanhamento médico, com exames frequentes, ajuste de medicações e modificação dos hábitos de vida. Nada de medir pressão ou glicemia na farmácia e achar que isso é suficiente.

E quando a doença já está instalada, o que dá para fazer?


Se você já tem doença arterial obstrutiva crônica e dores para caminhar ainda dá para correr atrás do prejuízo. Infelizmente, as artérias que estão obstruídas não voltarão a ficar pérvias. Nenhum medicamento, exercício ou mudança de hábito é capaz de fazer isso.
Porém, se você seguir as orientações que eu falei no item anterior, a chance de a dor para caminhar melhorar e a doença estacionar são muito boas. O consenso médico internacional sobre a doença mostra que 80% dos pacientes mantém a doença estável se modificarem os hábitos de vida após 5 anos de acompanhamento (leia mais aqui). Esses pacientes melhoraram da dor ou mantiveram dor estável e não precisaram realizar nenhuma cirurgia, muito menos uma amputação.
Mas, em 20% dos casos, mesmo fazendo tudo certinho, a doença progrediu, piorando a ponto de causar  piora na qualidade de vida, dor em repouso, feridas e gangrena.
Quando isso ocorre é necessário avaliar as artérias doentes com exames detalhados, como a angiotomografia, a angioressonância magnética ou a arteriografia. Esses exames detectam exatamente onde se encontra e como é a obstrução das artérias e com esse dado, o médico cirurgião vascular é capaz de planejar a cirurgia necessária.
Quando temos uma obstrução arterial há duas formas de resolver o problema do ponto de vista cirúrgico: desobstruir o vaso através da angioplastia (com ou sem colocação de stent) ou pular a obstrução através de uma ponte ou enxerto, que pode ser feito com veia safena ou com próteses artificiais.
A angioplastia é uma cirurgia feita sem cortes. O médico acessa as artérias através de uma punção como uma agulha grossa e chega até a obstrução através de fios guia e cateteres, navegando no interior dos vasos guiado por imagens de raio-x. Quando chega na área afetada, ele insufla um balão que vai abrir espaço para o sangue passar. Algumas vezes, é necessário colocar uma estrutura de metal maleável, o stent, para manter este espaço aberto. Essa técnica tem ótimos resultados porém não pode ser realizada em todos os casos.
A angioplastia é uma alternativa para o tratamento da doença arterial obstrutiva crônica das pernas
Nos casos em que não é possível permear novamente as artérias com a angioplastia é necessário realizar uma cirurgia maior e mais demorada, em que o cirurgião vascular irá criar um novo caminho para o sangue passar e atingir a área que está carente de oxigênio e nutrientes. Essa cirurgia é chamada de enxerto arterial ou ponte. Essa "ponte" na maioria das vezes é feita com veia safena, que é uma veia superficial que temos na perna, e pode ser retirada sem grandes prejuízos ao corpo. Algumas vezes, o cirurgião prefere utilizar próteses no lugar da veia.
O risco dessas cirurgias é piorar a circulação e levar a amputação do membro, isso vale tanto para a angioplastia quanto para o enxerto arterial. Mesmo quando a cirurgia é realizada da melhor forma e não se comete nenhum erro, isso pode acontecer. É um risco inerente da cirurgia. Por isso que reservamos o tratamento cirúrgico para os casos mais graves, nos quais o tratamento com medicamentos e mudança de hábitos não resolveu e a qualidade de vida do paciente está comprometida pela doença.

Concluindo, a dor nas pernas para caminhar pode ser o indício de uma doença muito séria que pode matar e causar amputação dos membros: a aterosclerose. A aterosclerose é a principal vilã da vida moderna, causada pelos nossos hábitos de vida ruins. Para evitá-la ou diminuir sua progressão é necessário mudar os hábitos: alimentar-se melhor, realizar exercícios físicos, não fumar e tratar das doenças que pioram o problema. O paciente que tem dores nas pernas para caminhar e inicia o tratamento correto, incluindo a mudança dos hábitos, na maioria das vezes melhora da dor e nunca irá precisar de uma cirurgia. Mas se o problema progredir, pode ser necessário realizar a revascularização da perna, através da angioplastia ou do enxerto arterial (ponte de safena). Às vezes, quando nem a cirurgia resolve o problema, a amputação de uma parte ou de toda a perna é inevitável. Para evitar esse desfecho, os portadores de aterosclerose e obstrução arterial precisam de acompanhamento de perto de um cirurgião vascular!

Encaminhem as dúvidas pelo Fale Conosco, Facebook, Google Plus ou Twitter. Boa semana a todos os leitores.


Dra Juliana Puggina - Cirurgia Vascular - CRM/SP 134.963
Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Endovascular pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e do American College of Phlebology.

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Musculação causa varizes?

Mito ou verdade: será que a musculação pode causar o aparecimento de varizes nas pernas?

A relação entre o aparecimento de varizes e a hipertrofia muscular é uma dúvida freqüente das pessoas adeptas à prática desse tipo de exercício físico. Todo mundo já viu pelo menos alguma vez na vida algum atleta de fisiculturismo com seus enormes músculos e veias aparentes e provavelmente é daí que vem a idéia de que a musculação pode aumentar o tamanho das veias e piorar as varizes.
Mas será que a musculação pode ser prejudicial para a circulação venosa da perna?
Pessoas musculosas geralmente têm veias superficiais evidentes, mas essas veias são normais, não são varizesComo já discutimos em artigos anteriores, como 'Por que eu tenho varizes?'  e 'Salto alto causa varizes?', um dos principais mecanismos que auxiliam no retorno do sangue venoso dos pés de volta para o coração é a bomba muscular da panturilha. Conforme a musculatura da panturilha contrai, as veias profundas que se encontram próximas a ela, são "espremidas"e o sangue é impulsionado para cima. O sangue consegue ir apenas em uma direção (para cima) devido às válvulas existentes no interior dessas veias, que impedem que o sangue retorne para o pé. Sendo assim, esse mecanismo de contração e relaxamento da musculatura é benéfico para a circulação venosa, melhorando o retorno do sangue e diminuindo o risco de desenvolver varizes e melhorando os sintomas das pessoas que já possuem o problema. Isso já foi extensamente estudado e comprovado pelos estudos científicos.
De acordo com esse raciocínio, quanto mais vezes você contrai e relaxa a musculatura da panturilha, melhor é o retorno venoso. Os exercícios aeróbicos como caminhada, corrida, ciclismo etc. parecem ser os mais benéficos. Durante os exercícios de musculação também temos a contração dessa musculatura, porém com menos repetições.
Vários estudos científicos (saiba mais aqui ) mostram benefícios dos exercícios de resistência muscular para a melhora da circulação arterial e venosa pelos mecanismos de remodelação vascular, neoangiogênese (formação de novos vasos) e alteração na parede das veias, com aumento da elastina e colágeno.
Outros cientistas evidenciaram que o aumento da massa muscular da panturrilha é responsável pela diminuição da complacência venosa, isto é, da capacidade das veias em reter uma grande quantidade de sangue dentro delas (saiba mais aqui). Esse fenômeno acontece porque o aumento do músculo ao redor das veias profundas comprimiria suas paredes contra a fáscia muscular e sendo assim, diminuiria o tamanho das veias. Em outras palavras, a musculatura funcionaria para as veias profundas como uma meia de compressão funciona para as veias superficiais. (falei um pouco sobre as meias no post 'Meias de compressão para corrida melhoram o desempenho?')
Todos esses estudos sugerem que a maior massa muscular e a prática freqüente de exercícios físicos é benéfica para a circulação venosa. Porém, nenhum estudo foi realizado especificamente para relacionar o aparecimento ou melhora das varizes e os exercícios de musculação. Portanto, a ciência ainda não tem essa resposta. Mas tudo indica que os exercícios não causam problemas para a circulação, pelo contrário, provavelmente são benéficos.
Mas aí você vai me perguntar: mas por que então as pessoas que fazem muita musculação e têm grande massa muscular ficam com as veias mais aparentes???
Em primeiro lugar, é importante ressaltar que as veias que ficam aparentes nas pessoas musculosas não são veias doentes! São veias normais, retas, de trajeto normal, com válvulas com funcionamento adequado. Ou seja: essas veias não são varizes.
O aparecimento dessas veias na pele é até desejado por esses atletas e existem até sites que explicam como otimizar o treino para aumentar o seu surgimento!
As veias ficam mais aparentes nessas pessoas principalmente devido à diminuição da gordura corporal. As veias superficiais encontram-se entre a pele e a fáscia da musculatura e estão envolvidas pela camada de tecido gorduroso abaixo da pele. Portanto, geralmente, essas veias ficam escondidas no meio da gordura, e normalmente são visualizados apenas pequenos trechos pelas transparência de pele.
As veias superficiais se localizam logo abaixo da pele e ficam envoltas pela gordura do tecido subcutâneo
Quanto menos gordura corporal você tiver, menos gordura haverá para esconder as veias e assim elas  vão ficar evidentes.
Quando a pessoa está fazendo o exercício, as veias ficarão mais evidentes ainda porque o exercício exige que o coração bombeie mais sangue para a musculatura através das artérias e consequentemente este sangue terá que retornar ao coração pelas veias, portanto, haverá mais sangue dentro das veias e elas se tornarão maiores. É por isso que, quando vamos ao laboratório retirar sangue para um exame, a enfermeira pede para abrirmos e fecharmos a mão várias vezes antes de procurar as veias. Dessa forma, realizamos um exercício da musculatura do antebraço e aumentamos a quantidade de sangue nessa região.

Concluindo, a musculação não é capaz de causar varizes. O principal fator de risco para as varizes é a genética, que infelizmente não temos como modificar. A musculação pode tornar as veias superficiais mais evidentes sim, especialmente nas pessoas que tem a porcentagem de gordura corporal mais baixa. Porém essas veias são normais e não veias doentes, como acontece nas pessoas que têm varizes.
Se você tem varizes e quer realizar exercícios de musculação não há contra indicação. Porém é importante ressaltar que o exercício não vai diminuir as veias. O tratamento das varizes é feito principalmente com cirurgia. Portanto, é essencial que a pessoa portadora do problema procure um cirurgião vascular para iniciar o tratamento o quanto antes e prevenir suas conseqüências.

Dra Juliana Puggina - Cirurgia Vascular - CRM/SP 134.963
Sobre a autora
Dra. Juliana Puggina é médica cirurgiã vascular e escreve artigos informativos no blog 'Pernas pra que te quero'. Formada em Medicina pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com residência médica em Cirurgia Vascular e Endovascular pela Universidade de São Paulo (USP). Membro da Sociedade Brasileira de Angiologia e Cirurgia Vascular e do American College of Phlebology.

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